Uma operação urbanística criada para financiar a reforma de São Januário virou um impasse no mercado imobiliário carioca. O Vasco da Gama está tentando vender 280 mil m² em potencial construtivo por R$ 500 milhões a um único comprador, mas não encontra interessados dispostos a adquirir todo o volume.

Preço abaixo do mercado não atrai compradores
O valor pedido representa aproximadamente R$ 1,7 mil por metro quadrado, abaixo dos R$ 2 mil praticados pelo mercado. Mesmo assim, não há demanda suficiente para a operação.
"Pode até aparecer alguém para comprar um pedaço desse potencial, mas no mercado não tem ninguém com capacidade para comprar tudo", disse um CEO envolvido nas negociações ao Metro Quadrado.
Ambiciosa reforma de São Januário depende da venda
O estádio construído em 1927 com recursos da própria torcida já foi o maior da América Latina e palco de momentos históricos importantes, como o anúncio da CLT por Getúlio Vargas em 1943.
O projeto de reforma prevê:
Ampliação da capacidade de 22 mil para 47 mil torcedores
Transformação em arena multiuso
Novas arquibancadas e cobertura
Áreas de hospitalidade e espaços comerciais
Estrutura para shows e eventos
Requalificação urbana do entorno em São Cristóvão
Lei de 2024 criou a oportunidade
Uma lei aprovada em 2024, na gestão do então prefeito Eduardo Paes, abriu caminho para o clube vender o potencial construtivo "acumulado" a outros projetos na cidade. A medida surgiu das limitações urbanísticas que impediram construções no local ao longo dos anos.
Mercado imobiliário carioca não aquece
"O Vasco está numa situação financeira complicada e precisa necessariamente vender para fazer a reforma", explicou um executivo do setor.
No Rio, as negociações de potencial construtivo seguem uma lógica própria, com incorporadoras negociando diretamente em volumes pequenos. Recentemente, um leilão de potencial construtivo do edifício "A Noite" não recebeu nenhum lance.
Contrato com SOD Capital não prosperou
O clube fechou exclusividade com a SOD Capital, de Wilson Borges, para intermediar a operação. Porém, mesmo com extensões contratuais, não foram encontrados compradores.
Quando o contrato acabou em fevereiro, Paes convocou incorporadoras como Tegra, Cyrela, Patrimar, SIG e Performance para discutir soluções, além de entidades como Ademi e Sinduscon.
Limitações geográficas complicam negociação
Atualmente, o potencial só pode ser usado em áreas específicas ao longo de eixos de transporte, como Avenida Brasil, corredores de BRT e regiões da Barra e Jacarepaguá.
Paes prometeu ampliar as áreas de uso através de projeto de lei, mas condicionou a medida à garantia de que os 280 mil metros seriam comprados integralmente.
"Construtoras não se reúnem. Como vou comprar um negócio que sei que meus colegas de incorporação vão estar fazendo ao mesmo tempo?", questionou um CEO sobre a proposta de compra conjunta.
"Todo esse imbróglio acontece porque mais uma vez o setor público tomou uma decisão sem escutar o setor imobiliário", criticou uma fonte do mercado. Enquanto não houver clareza sobre a participação de Wilson Borges, o Vasco dificilmente verá o dinheiro necessário para a reforma de São Januário.
Fonte: Metro Quadrado